Um dos grandes mistérios que assola a alma masculina é: o que tanto as mulheres fazem juntas no banheiro? OK, exagero na dimensão da curiosidade, mas é fato que a maioria dos homens se intriga com as visitas femininas ao toilette, necessariamente realizadas de forma coletiva.
Pois já digo de antemão que em alguns bares e casas noturnas esse grande momento socializador esbarra no impedimento arquitetônico, consubstanciado em espaços exíguos, casinhas isoladas e pias e espelhos em área comum a homens e mulheres (absurdo dos absurdos). Esses e outros problemas do gênero transformam a ida ao banheiro em uma verdadeira aventura, caso se insista em dividir o lavabo com a amiga. Ou em um ato tedioso, caso se opte pela visita solitária.
Muito embora eu não seja das mais vaidosas, quero que todo banheiro público tenha muitos espelhos e que eles sejam enormes e daqueles tipos que me fazem parecer mais magra e mais alta e nem um tanto desproporcional. Sim, quero espelhos mágicos por toda parte, para que eu possa me olhar, conferir meu sorriso (já me flagrei com salsinha entre os dentes) e dar aquela arrumadela básica nos cabelos e nas roupas. Caso eu fosse adepta de batom, lápis e rímel, essa seria também a hora de retocar a maquiagem.
A etapa narcísica coincide com o assunto mais urgente, claro. Enquanto a amiga ocupa a casinha, ou mesmo enquanto ambas esperamos a vez (porque em banheiro feminino sempre há fila), usa-se o espelho e afia-se a língua. Homens interessantes, outros tantos maltrapilhos, peruas insuportáveis, quilos perdidos, namorados conquistados, canalhas dispensados, não necessariamente nessa ordem, ocupam a pauta principal. Isso é líquido e certo.
No banheiro das mulheres raramente se fala sobre o clima, a não ser que seja clima de romance. A temperatura ambiente, os ventos, as massas de ar frio ou de calor só são lembrados por interferirem, obviamente, nos trajes possíveis e na impossibilidade de usar aquela roupa tão querida, linda, nova, e que combinaria tanto com os olhos dele.
Quem pensa que só a futilidade tem vez nesse ambiente de acesso restrito engana-se. Trabalho estressante constitui tema comum, em especial porque faz mal à pele e tira o brilho dos cabelos. Colegas impertinentes (de ambos os sexos) que costumam atrapalhar o desempenho profissional também são mencionados, contudo, para itens tão delicados é preciso tato e esperteza, características que eu costumo desprezar. De dentro da casinha, reclamo em voz alta da mal-humorada que ocupa a mesa ao lado da minha. E aí, encerradas as tarefas fisiológicas, dou de cara com a própria figura carrancuda, com feição ainda mais medonha, por motivos óbvios.
O ritual banheirístico encerra-se com olhares mútuos de cumplicidade e checagens múltiplas de visual, dos pés à cabeça, da cabeça aos pés, etapa que pode se alongar um tiquinho mais caso alguma outra dupla esteja desenvolvendo algum diálogo intrigante. (De repente pode-se oferecer ajuda a quem necessita, oras!) E, por fim, adota-se algum papo ameno para o caminho de volta à mesa ou ao mundo habitado tanto por homens como por mulheres. Fim! Como se vê, não há nada de muito especial no banheiro das mulheres, além das mulheres.


